Origem da vida

Janeiro 22, 2008 at 4:40 pm (Dia a dia) (, , )

No começo havia o Nada. O Nada começou a se sentir sozinho e resolveu criar um outro ser para lhe fazer companhia. Mas o Nada era realmente um nada, e só conseguiu fazer uma porcaria esférica que fazia pouca coisa. Chamou a sua criação de bactéria.

A bactéria não falava e não andava, mas 30 segundos depois de nascer, já tinha filhotes… E logo depois de nascerem, seus filhotes fizeram filhotes, e os netos já tinham bisnetos, e foi uma loucura só. E o Nada, assustado, gritou:

- Essa merda cruza mais que coelho!

O que é interessante é que ainda não existiam coelhos, mas o Nada pensou neles. Era um ser que estava além da sua época.

Logo o mundo estava repleto de bactérias, todas exatamente iguais, e que faziam exatamente nada além de ocupar todo o espaço. Mas as bactérias começaram a ficar amigas e a se juntar, cada uma desempenhando uma função diferente e assim conseguiram fazer um novo ser. Ninguém consegue explicar como as bactérias entenderam o conceito de trabalho em equipe, mas isso não vem ao caso.

E o Nada olhava boquiaberto.

E as pequenas – minúsculas, na verdade – criaturinhas fizeram um ser que seria perfeito para fazer o que elas mais gostaram: um coelho! Parece que o Nada havia previsto o que aconteceria. Mas como nem tudo é perfeito, elas fizeram um só coelho, gigantesco, vindo da união de todas as bactérias do mundo! Tinha aproximadamente 25 centímetros.

É claro que o coelho não durou muito, não existia ainda a grama para ele comer, nem uma coelha para reproduzir. E o coelho foi extinto antes mesmo de ser oficialmente criado.

O Nada, pasmo com a inteligência “superior” da sua criação, ficou estático por aproximadamente duzentos mil anos, o queixo no chão, ainda tentando processar os acontecimentos daquele dia, se é que os dias já existiam.

E foi então que a primeira lâmpada brilhou sobre a cabeça do Nada, e ele resolveu que iria escrever um livro. O livro explicaria como surgiu a vida, começando de pequenas estruturas minúsculas, que instintivamente se amontoavam para ser cada vez maiores, uma espécie de megalomania microscópica. O nome do livro seria “A Origem das Espécies”.

Depois de pronto, o Nada criou um baú, trancou seu livro e o escondeu. Usando toda a energia de sua mente milenar, ele pensou em todas as possibilidades, calculou as combinações possíveis e criou as leis naturais – gravidade, lei da selva e essas coisas diferentes. Num piscar de olhos, estava tudo pronto. Animais saltitantes, corredores, voadores, de todas as cores, formas, tamanhos e com todos os tipos de comportamento. Todos os tipos de paisagens prontas para serem destruídas. E o Nada finalmente ficou feliz, seu plano funcionaria, afinal, quem iria descobrir a verdade?

Ele olhou as criaturas e pensou “será que eles não precisam de mais nada?”. Logo imaginou que eles dariam um jeito se precisassem, e não se teve mais notícias dele.

Dizem que o Nada viveu escondido em uma caverna no Oriente Médio, até que alguém encontrou o seu baú, gostou do livro e publicou, porém com o nome do autor trocado. Ele então ficou bravo e foi embora pra sempre.

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5, 4, 3, 2, 1… !!

Janeiro 17, 2008 at 11:27 pm (Dia a dia)

E lá vou eu na minha nave espacial. De cima verei tudo o que não via. Já vi de minúsculos serezinhos a enormes montanhas. Agora quero ver o que o azul celeste me esconde. O que há de tão fantástico além do véu que nos cerca?

Lá fora procuro pelo segredo de tudo que existe. Talvez na imensidão do espaço encontre a parte que me falta, a solução de todos os problemas, ou ao menos uma placa escrito 42.

Queria ver Vênus e Mercúrio, mas o calor do Sol me afastou (quero me bronzear em Copacabana, não numa nave espacial). Então, logo que saí, mirei na direção de Marte. Não fiquei muito por lá, estava decepcionado pelo “gigante vermelho” não ser tão vermelho assim…

Quase perdi o controle quando passei perto de Júpiter. Incrível como pode ser tão grande. Estacionei pra tomar um café em Guanímedes, uma de suas luas, e apreciar a vista.

Perdido no horizonte espacial, reconheci um minúsculo pontinho azul. O coração bateu mais forte. A saudade apertou. Me apressei tanto que esqueci a mesa com café lá mesmo. Liguei a minha pequena Enterprise em velocidade máxima rumo à Terra. Foi então que eu percebi que tudo que eu queria encontrar era o que havia deixado para tras.

Guardei a nave na garagem de casa, as chaves na minha gaveta. Um dia ainda volto pra ver o que faltou, mas com certeza levo meus amigos comigo. Afinal “viver sem amigos é como tirar leite de um urso pro café da manhã, dá muito trabalho e não vale à pena” (Zora Neale Hurston).

A amizade é um amor que nunca morre – Mário Quintana

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O coelho e a onça

Janeiro 13, 2008 at 6:05 pm (Fábula) ()

Era uma vez, um coelho que vivia em uma floresta. Ele era muito querido por ser generoso e prestativo e tinha uma academia de atletismo; ele sabia saltar e correr, e queria ensinar a todos.

Mas nem todos estavam felizes com o talento e o reconhecimento que o coelho tinha na floresta. A onça, por exemplo, o animal mais temido, sonhava com o dia no qual conseguiria pegar o coelho e fazer um grande banquete.

Um belo dia, o coelho estava com vontade de comer suas frutas favoritas – as amoras que cresciam à sombra da amendoeira que ficava do lado de lá do rio – e para isso, precisava passar perto da casa da onça.

Andando atentamente e preparado para todos os perigos, o coelho passava pela casa da onça, quando ouviu um gemido de dor. Pensando que poderia ajudar uma vítima da cruel onça, o coelho correu para espiar.

A surpresa do coelho foi enorme ao descobrir que os gemidos eram da própria onça. Cheio de compaixão, ele perguntou o motivo.

- Eu estava perseguindo um esquilo, quando descuidei-me ao subir em uma árvore e levei um tombo. Machuquei uma de minhas patas. Está doendo muito! – disse a onça.

O coelho ajudou a onça a fazer um curativo na pata machucada. A onça agradeceu a ajuda, e logo em seguida mordeu o coelho. Era uma vez um coelho…

Moral da história: Fazei o bem, mas olhai a quem.

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O dia D

Janeiro 13, 2008 at 4:36 pm (Dia a dia) ()

Olho pela janela do quarto e vejo o céu cinza. Não há sol, não haverá estrelas. O vento frio lambe meus cabelos ensebados. Penso em você e, como em todas as outras vezes, nada faço.

Vejo seu número no cristal do meu celular, vejo sua foto estampada no meu monitor. Dessa vez não sinto meu coração bater. O sentimento está trancado na jaula do esquecimento, e fiz questão de esconder a chave.

Alguns dias são piores que os outros. Geralmente há ruídos. Ruídos não me deixam pensar. Algumas vezes ouço música, que evoca outras emoções. Hoje só há o silêncio. E não existe nada que o quebre.

O silêncio tem duas faces. Por um lado pode permitir a virtude da concentração. Por outro, como agora, abre as janelas da mente e permite que ela viaje dentro de si mesma, veja o que existe, o que não existe, e o que está por vir.

Preciso comprar uma iguana. Talvez uma aranha ou uma cobra. Que tal um livro? Dá menos trabalho pra cuidar, e a única coisa que come é o pouco tempo livre que resta.

Ondas cerebrais não me deixam descansar.

Domingo é assim.

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Qual é mesmo a cor que dá quando se esquece?

Janeiro 12, 2008 at 10:47 pm (Dia a dia) (, , )

Desligo o despertador, olho ao redor, nada reconheço no escuro. Abro a cortina, o sol quase me cega, continuo sem saber.

“Tomar duas pílulas por dia”. É o que está escrito no meu braço.

Pílulas? Ah! Devem ser essas aqui em cima dessa cômoda.

Faltam três na cartela, será que já tomei uma hoje? Acho que sim.

Batem à porta, digo para entrar. É uma senhora.

- Bom dia. – diz.

Tem um sorriso simpático no rosto, ela não me é estranha. Dobra as cobertas e guarda o travesseiro.

- Vá tomar seu café antes que esfrie. O que o médico disse?

Estou doente? Será que é sério? Eu não devia saber sobre isso? Murmuro algo ininteligível entre os dentes e me viro para vestir uma camisa que está jogada em uma cadeira.

- Por que não foi trabalhar hoje? Ainda sente-se mal?

Minto que sim. Achei que fosse sábado. Céu limpo e ensolarado tem cara de sabado. Ou seria de domingo? Será que eu trabalho aos domingos? Só faltava essa… Aliás, que dia é hoje?

Finalmente dirijo-me à cozinha. O instinto deve ter me guiado. Talvez o cheiro de café.

O telefone toca. Não atendo. Ouço que aquela senhora simpática atendeu. Ela parece feliz, deve ser uma pessoa querida. Então ela grita:

- Filho, é pra você! É a Chris!

Não percebi que tinha mais alguém na casa. Quem será o filho dela? Não importa, pelo menos esses biscoitos caseiros estão gostosos.

A senhora chega com o telefone e me entrega. “Não me ouviu gritar?”, ela diz. Fiquei confuso por um segundo, por fim digo “alô”.

Ouço uma mulher de voz suave, porém firme. Ela diz que está triste, parece que eu não me lembro mais dela. Diz que não quer jogar quatro anos de namoro “no lixo”. Quatro anos parece muita coisa, eu também não desperdiçaria. Gosto dela, mesmo sem reconhecer. Sinto que está triste. Queria dizer alguma coisa, mas não digo, apenas desligo o telefone e vejo o dia passar.

E tudo vai ficando branco, branco, branco…

Afinal, quem sou eu?

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